Erik Cruz

Amigos,

Compartilho com vocês mais uma história de sucesso, Erik Cruz  Advogado, professor e pai ,escolheu seu desafio e assumiu todos os sacrifícios envolvidos na conquista de sua meta.

Parabéns Erik, ficamos felizes de ter participado desta jornada.

O Letape II – 2011 – 210,5km – Issoire-Saint Flour

Erik Cruz pedala na edição 2011 do Letape na França

Esperei uns dias para escrever minhas impressões sobre esta prova atípica, que um jornal aqui da França classificou como “Um dia Dantesco”. A emoção que este desafio me trouxe precisava ser amenizada um pouco pelo tempo, para que minha narrativa não virasse um relato destemperado.

A véspera da prova foi marcada pela escolha infeliz de uma longa viagem entre as cidades de Lourdes e Clermont-Ferrand, de aproximadamente 650km.

Nosso grupo passou praticamente um dia inteiro dentro de uma van muito desconfortável, que certamente comprometeu o desempenho na prova do dia seguinte, tanto que levou alguns a decidirem por não ir para a largada. Mas eu me dediquei muito a este desafio e nem pensava nesta hipótese.

O início do dia 17 foi o prenúncio da dura jornada que teríamos que enfrentar no Maciço Central francês. A chuva, que começou por volta das duas da manhã, já encharcava as poucas roupas que vestíamos e colocada à prova as blusas impermeáveis (pelo menos assim estava escrito nas etiquetas…) que compramos a preço de ouro na feira montada no local da entrega dos kits, na véspera.

Enquanto procurava minha baia de largada, junto com os outros ciclistas do grupo, eu já começava a me questionar se deveria mesmo ir em frente, pois ali mesmo o frio, aliado à chuva e ao vento constantes, já parecia invencível.

Mas foram muitos meses de preparação, muito tempo sacrificado, muitas horas que deixei de estar com meu filho e minha mulher, e conquistar aquele desafio deixou de ser apenas um desafio para um ciclista. Passou a ser uma questão de honra.

Antes de largar eu já me penitenciava por não ter colocado mais roupas, por ter deixado o manguito na van, enfim, o clima assombroso já colocara os nervos à prova.

A quantidade de ciclistas na largada, apesar da desistência de mais aproximadamente 2000 atletas, tinha o efeito de abrandar a tensão, afinal, eram tantos ali que eu concluía ser apenas mais um em milhares, e portanto a situação não era tão alarmante assim.

Iniciei a jornada ao lado de alguns colegas do grupo do Cléber Anderson (São Paulo), mas em poucos minutos não via mais nenhum conhecido e procurei me agrupar em um grande pelotão, o que de certa forma reduzia um pouco (infelizmente não o suficiente) o incômodo que a tal combinação chuva-vento-frio provocava.

Os 20/30 quilômetros foram tranqüilos, dentro do possível, até que, após um subida não bem longa, atingimos uma região rural de estrada bem aberta, o Maciço Central, onde o vento passou a castigar a todos e sensação térmica era insuportável. Os primeiros pelotões enfrentaram até chuva de granizo. Já na primeira parada, por volta do km 60, o cenário era de desastre: muitos ciclistas desistentes, muita gente tremendo de frio e buscando alojamento em casas, estábulos ou qualquer outro lugar que pudesse aquecer o corpo. Decidi não parar ali nem porque se o fizesse talvez não continuasse a pedalar. Parei num canto, encontrei alguns pedaços de papel e coloquei o que pude entre o corta-vento e a blusa de ciclismo, em uma tentativa vã de amenizar o frio e tentar parar de tremer. E fui em frente…

Depois de passar pelo maior desconforto térmico da minha vida, alcancei o Col de Peyrol, a 1400 metros , topo da primeira grande subida da prova. Lá em cima, sob uma chuva fria e galada, forte névoa e um frio congelante, encontrei um pequeno bar, típico de estações de esqui, onde outros vários ciclistas recebiam atendimento médico por conta da hipotermia. Novamente a cena era de dar medo, porque os enfermos tremiam e estavam enrolados naqueles cobertores térmicos, uma espécie de papel laminado que ajuda o corpo a retornar à temperatura normal.Neste ponto a vontade de parar ficou ainda mais forte, mas não o suficiente para vencer a determinação que as horas de treinamento deram. E segui em frente, realizando a descida mais difícil e lenta que já havia experimentado, pois o frio não me permitia soltar os freios como de costume.

A assim foi praticamente todo o percurso, rezando para não chegar as descidas e torcendo por uma subida bem ingrime que me permitisse fazer bastante força e com isso espantar um pouco o frio. Na primeira parada que fiz, por volta do km 100, a visão dos ciclistas congelados, procurando algo para comer, era assustadora. As cabanas montadas estavam lotadas, os muitos voluntários tentavam ajudar a todos da melhor maneira possível diante daquela situação dramática que se instaurou na prova. Consegui três copos de café. Bebi dois e o terceiro joguei dentro das sapatilhas, para tentar “derreter” os dedos dos pés.

Os voluntários e expectadores, aliás, merecem as mais honrosas homenagens, pois também estava ali, naquele clima tão adverso, simplesmente para nos ajudar e dar apoio moral com os gritos de allez !, allez !, bravo !, bravo ! Incrível e emocionante a presença de pessoas de todas as idades. Muitas vezes, em lugares ermos, havia lá um solitário expectador a gritar para nós ao passarmos, e realmente isso nos dava força para pedalar mais, subir mais, agüentar mais o frio.

Os 50km finais foram mais amenos que os anteriores (o que não significa dizer que foram cômodos e livres de chuva, vento e frio) e as descidas predominaram. Apesar de não ter condições de descer em alta velocidade, em razão do frio e do piso molhado, as descidas não foram tão causticantes quanto as anteriores, e comecei a acreditar que iria mesmo completar aquele a prova.

Procurei manter a concentração, controlar a câimbra nos músculos do abdômen (provocadas pelas horas de contração de frio) e consegui impor uma velocidade média até razoável.

O último grande desafio da prova foi a subida nos arredores do Chateau d`Alleuze (por volta do km190), que na altimetria dizia ser de 2km mas na realidade eram mais de 4.

Dede o início a corrida deixou de ser uma competição de ciclismo e passou a ser uma prova de resistência ao frio, ao desconforto provocado pela chuva incessante e pelas dificuldades e riscos que o vento trazia. As pernas não foram tão exigidas, porque as condições climáticas não permitiram o desempenho atlético programado e esperado.

Nos dois kms finais da prova, que eram de subida (que novidade !) mantive minha concentração porque a fadiga mental e física eram tão fortes que qualquer mudanças de posição na bike, qualquer pedalada errada seria suficiente para me impedir de chegar, ou pelo menos de chegar pedalando.

Cruzei a linha de chegada depois de 9 horas de muita resistência, esforço, dor e desconforto. Só não fui às lágrimas porque a vontade e a concentração absoluta nem me deram tempo para isso.

Depois da conquista, fiquei tentando compreender a razão daquilo tudo. Por que eu havia colocado em risco muita saúde e minha vida. Aos olhos daqueles que não se envolvem tanto com o esporte,  ou que não impõem desafios dessa magnitude, uma prova como essa certamente assume ares de loucura, de total absurdo, de insanidade mesmo.

Mas para nós, atletas amadores, estes desafios são a fonte de nossa energia, a razão que nos leva a sair de casa para treinar sob as mais adversas condições, em momentos que a maioria das pessoas prefeririam estar sentados em suas casas, assistindo a um programa de TV, ou a um filme qualquer.

E nós vivemos é disso mesmo, de vencer desafios. Apesar de ter levado bem mais tempo do que esperava, me dei por satisfeito e pendurei orgulhoso a medalha no peito, e o tempo de prova (que quase sempre é o nosso objetivo maior) desta vez não foi tão importante. Certamente que, em condições climáticas normais (ou ao menos razoáveis) todos nós teríamos feito a prova em muito menos tempo, duas horas a menos, talvez, mas o que fez desta prova um desafio singular foi justamente a batalha entre o corpo e a mente, e foi uma lição que vai ficar para o resto da vida.

Na manhã do dia seguinte o Dr. Marcos, ciclista que havia cumprido o desafio do Letape 1, bateu na minha porta e me disse: ‘Parabéns cara, fiquei sabendo o quão difícil foi a prova ! Você fez isso pelo seu filho que ficou lá no Brasil, não foi ?” De fato este foi mesmo um pensamento que me acompanhou durante a prova, qual história eu teria para contar a ele no futuro: contar as razões (muito justas, por sinal) de uma desistência ou contar sobre a teimosia e o esforço em fazer a cabeça dominar o corpo que pedia para parar. Mais uma vez (e não foram poucas) contive o choro e agradeci a gentileza.

De fato, nos momentos mais difíceis foi nele que pensei, e na minha esposa, que teve muita paciência para aturar as minhas saídas para treinar enquanto cuidava do nosso neném.

Contei também com bons amigos que me ajudaram a me preparar para este desafio, a quem externo aqui meus mais sinceros agradecimentos: Os professores Marcos Hallack, que me treinou e cuja frase repetida várias vezes foi marcante durante o percurso (acredita, Erik, acredita!) e Ricardo Leite, parceiro de pedaladas, incentivador e sempre preocupado em me orientar. O Walter e o Rafael Brasília (nutricionista), ambos do Rio. Aos meus parceiros de pedalada, em especial o Marcelo Dornellas e o Wagner (companheiro dos rolés de sábado). Divido com vocês minhas alegria e satisfação.

E além da minha conquista pessoal, foi por todos estes que consegui resistir a tudo e cruzar a linha de chegada. Agradeço a todos vocês pela amizade e pelo carinho. O que pode parecer absurdo e até mesmo idiotice para alguns, é para nós uma forma de agradecer a Deus pela saúde que temos, pelas possibilidades quase infinitas que a vida nos apresenta e que basta acreditarmos que somos capazes.

E para finalizar, me lembro da já tradicional frase cujo autor(a) agora não me recordo: Sentir dor é inevitável, mas sofrer é opcional.

Abraços a todos.

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